quinta-feira, 30 de abril de 2009

Silêncio, por favor


Terça-feira em Lucca.


Quarta feira na Via dell'Amore.


Mais Via dell'Amore.


Ainda a Via dell'Amore.


Logo depois da Via dell'Amore.


Quinta-feira em Pisa.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mas que cidade é essa?!

Os mineiros é que têm razão quando chamam tudo de trem, porque trem é paisagem. Se o vagão está vago, então... é paisagem com direito a tirar os tênis e esticar as pernas sobre o assento da frente. Ainda não encontrei, aqui pela Toscana, uma paisagem tão deslumbrante quanto a dos filmes, ou pelo menos quanto às de Minas, mas já está melhorando...



Lembrete para mim mesmo: evite chegar numa nova cidade aos domingos, noites e feriados, pois postos de informação e lojas estão fechados. Lembrete 2 para mim mesmo: com bagagem, não pense duas vezes e pegue um táxi.

Deixei a mala no hotel e andei na direção da praia. Essa foi a minha primeira visão do mar mediterrâneo. E foi a primeira vez que eu lembro de ir pra praia de tênis e calça comprida.



Quando cheguei mais perto da água, resolvi dar um giro de 360 graus. Parece até que as pessoas tinham se preparado para serem filmadas.



Resolvi caminhar, mesmo de tênis e na areia fofa. E eu, cearense besta, que pensava que as barracas da Praia do Futuro eram o máximo estendido na areia! Aqui as barracas são verdadeiros hotéis, com direito a chalé, e enfileiradas: quase não se consegue um espaço para entrar ou sair da praia.



Os donos de barraca chegam ao cúmulo de lotear a praia. Pode?!



E botam gente pra passar o rodo e eliminar a sujeira e a ondulação da areia.



Agora... que é um belo conjunto de praia, hotéis-palacetes e montanhas, ah, isso é. E o guindaste de sempre, claro.



Caminhei um tanto, esperando o sol se pôr, mas ele estava muito lento. Lembrei de um poema que fiz e que Fabiano musicou. Mas só consegui lembrar do refrão.



Na saída da praia, sentei num banquinho pra tirar a areia do tênis. Fiz isso numa alameda larga e bonita, boa pra passear.



Quando essa alameda acaba, a gente faz um desvio e cai numa rua paralela (sim, aqui existem paralelas!) que é um verdadeiro shopping Center, uma Monsenhor Tabosa chic à beira-mar. Não me agradou muito, não tirei foto, abri meu mapa e, vendo que havia uma espécie de parque na paralela seguinte, saí da orla.

Fiquei impressionado com o parque, ou bosque, chamado Pineta de Ponente. Fiz um videozinho de uma das encruzilhadas (de perpendiculares!).



Depois dos caminhos de terra, peguei uma rua de asfalto à direita. O pessoal aqui parece que gosta muito de asfalto. Até calçada asfaltada tem. Esse asfalto dentro do bosque era até simpático.



Ao lado da estrada, um verdadeiro comércio: parquinhos de diversões, aluguel de bicicletas... Tudo fechado, já que era praticamente noite de um feriado nacional. Achei curioso esse restaurante com um “prezzo manicomio”. Coisa de louco!



No caminho de volta para o hotel, fiquei tentando entender que tipo de cidade é esta. Não se parece, no total, com nada que eu tenha visto: praia-bosque-montanha, antiga-colorida-chic... Não sei como definir. Resolvi tirar uma foto de uma rua que me pareceu “típica”.



Na volta para o hotel, ainda passei por uma outra rua completamente comercial, que deve ter sido uma loucura mais cedo, num sábado de sol. Por volta das 8 da noite, eram só os comerciantes fechando as portas. Tirei a foto de uma loja com o nome de minha prima, que é um nome que gosto muito, pra servir como exemplo da tal rua.



No hotel, estava cansado e com aquela quentura típica de quem pegou sol demais. Vontade de deitar na cama e fazer nada. Foi quando percebi o que fiz durante a tarde, andando, vendo, fotografando... Eu estava tentando esquecer Firenze, estava tentando sobrepor novas experiências e imagens, estava tentando driblar a saudade.

Resolvi parar de me enganar e dediquei dia seguinte, domingo, ao descanso, a fazer o derradeiro diário de Firenze, a ouvir música... Fiquei o dia quase todo no hotel. Só saí para ver um filme, porque cinema é outra coisa que me coloca no eixo.

O horário que peguei na internet estava errado. Cheguei meia hora antes do filme começar. Entrei na sala pra esperar e tomei um susto. O cinema me lembrou, guardadas as devidas proporções, o Cine São Luiz, de Fortaleza. Foi o primeiro cinema italiano que gostei assim logo de cara.



Enquanto o filme não começava, saquei meu iPod e li uma das palestras do Pathwork. Coisinha que também me devolve ao centro de mim mesmo.

O filme era uma comediazinha romântica, divertida, de sessão da tarde. E o cara da projeção esqueceu de dar o tradicional intervalo de cinco minutos no meio do filme, que tanto me enerva. Só apareceu o sinal de intervalo já perto do filme acabar. E não durou nem um minuto.



Saí do filme com uma música na cabeça. Aqui na Itália tem sido difícil encontrar boa música, melhor dizendo, boas canções, já que vi coisa boa instrumental. Mas saí do cinema com a referência de uma canção: Qualcosa che non c’è, de Elisa Tiffoli. Ainda um pouco chorada demais, mas tem uma letra bonita.



Já mais centrado, no hotel, consegui visualizar minha semana: fazer pequenas visitas a Lucca, Pisa e Cinque Terre na terça, quarta e quinta-feira, que serão dias mais nublados. Sexta-feira, que promete ser sol, fico aqui por Viareggio. E, no sábado, vou para Siena, passar um ou dois dias, a caminho de Perugia/Assisi.

sábado, 25 de abril de 2009

A chuva que não veio do céu

A previsão do tempo para sexta-feira era de frio e chuva em Firenze. Mas o dia amanheceu azul, e não era mais um erro dos meteorologistas. É que alguns acertos precisam de paciência para serem compreendidos...

No café da manhã, comi pouco. Ainda estava digerindo o jantar de despedida da noite anterior. Um professor e 19 estudantes comemos tudo a que tínhamos direito: pão, salada, sopa, pasta, carne (nem todo dia se consegue ser vegetariano) e doce.

A caminho do restaurante, pôr-do-sol ao longo do Arno.


Final do jantar, com as pessoas se levantando para tirar fotos. Foi tirada uma foto da turma toda, que depois será enviada a todos. Por enquanto, essa.


Um holandês muito gentil e simpático chamado Erwen. Sempre nos encontrávamos na sala de estudo: ele estudando, eu na internet.


Derradeiro dia de aula. Barbara nos entregou a prova, que havíamos feito ontem, corrigida. Ela não deu nota, mas consegui acertar uns 80%, o que está ótimo para quem praticamente não estudou em casa. 10:30 saímos para um café numa livraria vizinha. Momento de conversar um pouco e de tirar algumas fotos.

Da esquerda para a direita: as alemãs Lea, Franziska e Ilona, eu, professoressa Barbara e o casal brasileiro Maíra e Eduardo.


Eu entre minhas lindas e bravissime professoresse Barbara e Emanuela.


No início da aula de conversação, reunimos as duas turmas para um pequeno número musical. Eu havia feito a versão de uma canção de ninar minha e havia ensaiado com o australiano Simone, que não veio. O professor Duccio, que havia nos levado ao jantar de ontem, gentilmente aceitou o convite para me acompanhar ao piano. Meu xará Eduardo fez a gravação.


Que estranho eu falando italiano! Mas foi um momento muito emocionante. Barbara e Ilona choraram. Eu me segurei.

Depois das aulas, desci a longa escadaria da escola e senti uma dor no coração quando a pesada porta de ferro se fechou atrás de mim. Fiz o agradecimento que sempre faço aos lugares que deixo, passei na livraria para comprar um livro de exercícios de italiano para praticar no meu retorno ao Brasil e depois fui cumprir um compromisso...

Luiza me havia escrito há alguns dias: “Concordo e partcipo desse seu desejo de ‘não ser turista’, mas gostaria muito que você fizesse uma visita, por mim. É para a Pietá, do Michelangelo, no Museo dell"Opera del Duomo... Grata.” É difícil recusar um pedido da Luiza, e esse, em particular, era impossível recusar. Luiza possivelmente não sabe, mas a Pietá (uma das várias que Michelangelo fez) sempre esteve ligada emocionalmente a uma cena que aconteceu na varanda da casa da própria Luiza. Faz uns 10 anos. Eu estava frustradíssimo após uma temporada de trabalho na Serra da Ibiapaba, e chorei bastante contando a história para Luiza na varanda de sua casa. Luiza, que sempre tem a palavra certa para a hora certa, dessa vez não disse nada. Simplesmente se levantou, caminhou até mim e se curvou, abraçando-me. Se Michelangelo estivesse ali, teria tido vontade de fazer mais uma Pietá, mais uma imagem da Mãe de Jesus acolhendo seu filho exausto.

E, de certa forma, foi também assim que me sentei no banquinho de madeira da sala da Pietá no Museu dell’Opera del Duomo. Exausto, não fisicamente, mas emocionalmente. Morto de saudades dessa cidade que eu estava para deixar. Como o próprio Cristo, fechei meus olhos e abandonei meu cansaço, certo de estar sendo seguro pela presença firme e comovida de Luiza e de cada uma das grandes mulheres que tenho o privilégio de ter nesta vida.

A tarde foi de correria. Preparei um pacote de 7 quilos, com coisas que não me seriam mais úteis durante o restante da viagem – livros, revistas, guias, meias, cuecas, cabos... – para enviar pelos correios. Depois fiz um bucato de roupa e levei pra lavar na Wash&Dry. Quando voltava para casa, um saco em cada mão, encontrei com o sol, que começava a se pôr. A Via Pisana dava direto para o pôr-do-sol. E, mesmo cansado da correria, me veio a idéia de assistir ao entardecer do Piazzello Michelangelo. Peguei o 12, que serpenteou o monte, entre árvores, até o topo. Saí do ônibus e o sol já era posto. Eu estava no crepúsculo ou, como diz Fabiano, no “encontro do claro com o escuro”. O céu continuava aberto, com uma ou outra nuvem. E foi quando pisei na calçada mais à direita do Piazzello Michelangelo que aconteceu. Foi quando eu soube que os meteorologistas estavam certos. Foi quando eu percebi que todas as nuvens cinzas que deveriam estar no céu estavam, na verdade, em meu peito. Foi quando lembrei das nuvens que já haviam chovido dos olhos de Barbara e Ilona. E foi quando também meus olhos choveram a chuva que não vem do céu. Chuva com trovões de soluços, que me fez apoiar sobre a mureta para não cair. Chuva para a qual o vento seco da Itália foi, pela primeira vez, um carinho, um afago de Mãe. Chuva igual a essa que chove agora só porque me lembro e escrevo.

*

Não peguei o 13, que me levaria mais rápido para casa. Peguei novamente o 12, que ainda circularia toda a cidade antes de me deixar próximo à Via Monte Oliveto. Da flor que é Florença, o 12 foi o Circular. O circuladô de fulô.

E mesmo cansado, mesmo com sono, adiei ao máximo a hora de dormir. Simplesmente porque não queria acordar e ter de partir de Firenze.

*

Acordei sem despertador. Para o derradeiro café com Bigi. Dei-lhe um regalo, meu livro A Concha e a Borboleta com a tradução italiana escrita a lápis em cada página. Depois fui ao centro comprar, no camelódromo, uma camisa violeta com o símbolo de Firenze em dourado, para que eu tenha sempre no peito a cor e a imagem desta cidade querida.

Uma foto com Bigi. Um táxi à minha espera. Mais um ruído de porta fechando. Mais um agradecimento. Mais chuva em mais um dia ensolarado. E a espera na estação Santa Maria Novella. A espera por um trem que me levaria para longe de Florença. Ah, eu poderia ter esperado dias, meses, anos por aquele trem. Poderia ter me tornado um senza dimora, um sem-teto fiorentino. Mas o trem veio logo, e eu fui com ele. Vim? Já faz quase um dia que estou em Viareggio, e parece que ainda não estou aqui.


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Três cuecas e três pares de meia

Domingo. Enquanto eu esperava por Vanessa, um casal japonês (ou chinês, ou coreano, nunca se sabe) fazia seu book de casamento junto à enorme porta da catedral do Duomo.

Era pra ser só um café da manhã quase almoço, pouco depois do meio-dia, num restaurante na praça do Duomo, mas a Vanessa falou: “Vamos pra Milano?” Eu devo ter olhado pra ela com aquela cara de “não tô nem louco de deixar Firenze”, e ela acrescentou: “eu garanto o hotel”. E eu ainda pedi 5 minutos pra pensar.

Eu sei que qualquer pessoa diria “sim” sem nem piscar, mas gente... é minha derradeira semana em Firenze. E Firenze é... bem, deixa pra lá. Depois de dois cappuccinos, uma insalata e uma corrida de táxi, eu disse a Vanessa que sim. Arrumei a mochila da maneira mais rápida e desarrumada possível, e entrei no ônibus.

Durante a viagem, eu não parava de pensar... Quem deveria estar aqui era o Fábio. Ele seria um músico entre músicos. Ele correria o risco de nunca mais sair desse ônibus e de abandonar de vez a engenharia. “I wish you were here, Fábio”, eu repetia em pensamento. E quando Léo, o técnico de som, colocou pra tocar o DVD do Pink Floyd, e Kassim plugou o adaptador-estrela que permitia 6 fones de ouvido no mesmo aparelho, éramos todos ouvidos a esse belo show, com direito a “I wish you were here”, Fábio.

No dia seguinte, já cheio de saudade de Firenze, fui logo pela manhã comprar minha passagem de trem de volta. Sob a garoa de Milano: São Paulo pura. E quando eu desci do ônibus 60, em frente à estação, eu boquiabri-me. Isso é não é uma estação de trem, é um palácio.



Segunda-feira à tarde, a passagem de som, que foi um verdadeiro show. Primeiro a banda brincou à vontade, depois Vanessa entrou e cantou de tudo (Donato, Caimmi...), mas principalmente Djavan. Lembrei de uma conversa no Rio, quando ela havia dito que não se sentia muito à vontade pra gravar outros compositores, principalmente os clássicos. Mas Vanessa cantando Djavan é simplesmente delicioso.



Gastei toda a memória da câmera na passagem do som. À noite, fui ao show sem câmera. Devo ter sido o único. Fiquei pensando se Julio, o iluminador, leva em conta aquele monte de displays acesos ao fazer sua escolha de luzes. Aliás, o Júlio simplesmente arrasou: fez uma iluminação de cair o queixo em “Eu sou neguinha?” Ah, quem apareceu por lá foi o Ronaldinho Gaúcho. Não quis aparecer muito no palco, mas trocou uma reverência mútua com Vanessa.

Depois do show, não quis me juntar à turma para o jantar pós-show e voltei andando para a cama. No domingo, havia dormido no hotel. Na segunda, devido a um mal-entendido, dormi no ônibus mesmo com o quarto estando disponível pra mim. Então anotem aí mais um item na minha lista de hospedagens dessa viagem: albergue em Roma, casa de desconhecido e hotel com internet de 5 Euro por hora em Bologna, hotel de duas estrelas com internet no quarto (o melhor hotel até agora) e casa de Bigi em Firenze, hotel quatro estrelas e ônibus de turnê em Milano.

No escuro do ônibus, felizmente a câmera ainda me deu um minutinho de memória pra gravar uma música que estava nascendo na minha cabeça. Numa pequena viagem musical de dois dias, foi bom concluir a noite com início de música nova. Vejam aí a ultrassonografia de uma canção que talvez nasça daqui a algum tempo. Tem cara de menino, mas desconfio de que será uma menina.



Terça-feira pela manhã, me despeço da turma que já acordou e deixo um bilhete alaranjado para Vanessa, agradecendo o aventureiro desvio de rota.

Outra coisa boa da vinda a Milano: andar no Freccia Rossa, o bonito trem de alta velocidade italiano. Duas horas e dez minutos depois, eu estava em Santa Maria Novella, estação ferroviária de... Firenze. Ah, tem algo no ar de Firenze. Um clique de porta atrás das costas que faz a gente saber que entrou em casa.

Rearrumei a bagagem e fui até o Istituto. A primeira pessoa que vi foi minha querida professora Barbara. Depois, já na sala de estudo e internet, Erwen, Bernardete e Liliana. Coisa boa ver aqueles rostos. Pesquisei e reservei um hotel em meu – desculpe, Tia Monca – NOSSO próximo destino: Viareggio, uma praia ainda na região da Toscana, a hora e meia de trem de Firenze.

Também inaugurei o Skype do iPod. Parece que todo mundo adivinhou e estava online: Karina (com Kildare e Luís em casa), Mainha (com Biba, Tia Monca e Neima), Nininha, Felipe, Polyne, Alba. E eu nem lembrava que era feriado no Brasil. Viva Tiradentes, por ter me dado essa alegria de ouvir as vozes tão queridas e tão cheias de alegria. Nininha chegou a chorar. Amo vocês, gente.

E vamos lá... viajar!

Peraí, peraí! Tem que lavar as meias e cuecas do título! Normalmente, bastam duas cuecas e dois pares de meia. Usa um enquanto o outro seca. Mas, quando surge um imprevisto como essa rapidinha em Milano, é que a gente vê que melhor mesmo é ter três na bagagem.

domingo, 19 de abril de 2009

As portas da fantasia

Até o Inverno sente saudades de Firenze, e retorna de vez em quando com seu cinza, seu frio e sua chuva...

Quando sabiam que eu passaria dois meses na Itália, algumas pessoas me disseram para aproveitar e conhecer outros países: França, Alemanha, Portugal, Espanha... “É tudo tão pertinho”, diziam. E eu sempre respondia que queria mesmo ficar só na Itália, aprender o idioma, viver. Porque não me sinto muito bem no papel de turista, querendo conhecer tudo, ir a todos os museus, fazer todas as visitas “obrigatórias”. (Para vocês terem uma idéia, só fui conhecer o Cristo Redentor lá pela 3ª vez em que fui ao Rio de Janeiro.) Também não dou conta de viver como uma pessoa da outra cidade ou do outro país, simplesmente porque não idealizo a vida de um boliviano, de um peruano ou mesmo de um italiano; trabalham duro e têm seus problemas como todo bom brasileiro. Minha vontade era, e é, viver como se fosse eu mesmo, mas numa cidade diferente. Viver, claro, uma versão um pouco diferente de mim mesmo, um eu mesmo mais aventureiro, mais propenso a riscos, a descobertas, mas, fundamentalmente, eu mesmo.

Settimana scorsa, semana passada, foi assim em Firenze. Tanto que não me surpreendi muito ao ver que não havia tirado foto nenhuma. Eu estava simplesmente vivendo na cidade. Comecei a escrever meu primeiro texto – um conto tradicional – diretamente em Italiano, estudei para a scuola, invece simplesmente freqüentar as aulas, fui ao cinema e ao teatro, comprei um jogo de tabuleiro para enviar para minha irmã e cunhado, iniciei a leitura de um novo livro (Fiabe Italiane, do Ítalo Calvino)... E justo quando estava vivendo exatamente aquilo que eu tinha vontade, percebi que os dias da partida já estavam sendo contados, em contagem regressiva. E os dias têm sido, desde então, matizados por uma saudade invisível da qual tenho falado e que pode ser vista em meus olhos.

Fiz uma lista do que ainda deveria fazer em Firenze antes de partir dia 25. Uma lista até pequena, que começava com “subir à cúpula do Duomo” para ver a cidade de cima. Quase todo dia, da janela do 3º andar do Istituto Italiano, eu como uns deliciosos biscoitos olhando para a cúpula do Duomo, onde estão turistas corajosos, dispostos a subir mais de quatrocentos degraus, em espiral, para chegar ao topo de Firenze. Mesmo o Istituto sendo praticamente vizinho ao Duomo, os turistas, lá em cima, parecem pequenos, minúsculos, como se fossem de brinquedo. Eles olham para baixo, com suas câmeras fotográficas, enquanto eu olho para cima. E foi comendo um biscoito que me ocorreu que, talvez, o Duomo não tenha sido feito para se subir e para se olhar para baixo, mas para que se pudesse olhar para cima: uma desculpa para olhar o céu, encarar o sol, perceber nossa pequenez e, quiçá, compreender que o buraco é mais em cima. Então, quando fechei o pacote de biscoitos, fechei também a minha lista: cancelei de uma vez por todas minhas obrigações de turista.


Mas sempre sobra um farelo que atrai uma formiga que passa por qualquer porta. E um item da minha lista eu ainda desejava fortemente cumprir: ver a mostra “As portas da fantasia”, do artista plástico Giuliano Ghelli. Lembram daqueles manequins coloridos que eu havia visto num dos passeios ao longo do Arno? Pois é, entre um delicioso papardelle e meu primeiro iPod, fui ver a exposição, que até gratuita era. Numa cidade em que se paga por tudo, fiquei até envergonhado de não pagar nada para ver as obras de arte mais bonitas que vi até aqui, e comprei o catálogo da exposição.
São as cores, gente. A Itália que eu vi até aqui é carente de cores: é tudo muito pastel. É como os bustos do próprio Ghelli: lindíssimos corpos de mulher cravejados de fantasia, mas sem cor. Nas telas, as cores explodem como se fossem um carro atingido por uma colombina incendiária. Não são simplesmente quadros que retratam portas, são as próprias portas das cores e da fantasia abertas para nós.

E eu saí da Sala de Armas do Palazzo Vecchio sonhando em ter livros ilustrados pelo Giuliano Ghelli.

P.S. Não posso deixar de mencionar, apenas mencionar, outras coisas dessa semana fiorentina... DOIS FILMES: Tutta colpa de Giuda; e Questione di Cuore. DOIS TEATROS: um buffet seguido de show musical no Teatro Dal Sale; e Amor e Psiche no Teatro della Pergola.

sábado, 18 de abril de 2009

Minha màe tem razào -- mais uma vez

Màe, Floreza nào existe. Quer dizer, existe; mas sò no mapa do meu coraçào. :) Eu tinha pensado em criar um nome que traduzisse Florença para indicar a qualidade da cidade, assim como a qualidade de grande é grandeza e a qualidade de belo é beleza. Floreza seria a qualidade de "flor", pensando em "flor" como um adjetivo. Mas devo confessar que fiquei surpreso com sua interpretaçào e que ela me pareceu muito exata, porque tenho me sentido muito em casa em Firenze, entào é mesmo uma combinaçào de Florença com Fortaleza. :)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Quase um poema


Floreza
não é uma cidade
para se curtir
uma semana,
muito menos
para passar
um mês.
É uma saudade
para se habitar
um ano
ou
- pelo menos -
para viver
para sempre.