sábado, 4 de abril de 2009

Uma metáfora que aconteceu

Acontece raramente, mas é um privilégio ver uma metáfora acontecer. Porque primeiro vem o acontecimento, que o poeta transforma em metáfora. Para o poeta, a metáfora já aconteceu. Para aqueles que escutam a metáfora, ela normalmente é o relato poético de algo que eles jamais verão. Por isso é um privilégio ver algo que já aconteceu acontecer novamente, porque nos permite ser poeta de um verso que já está escrito. E hoje uma metáfora me aconteceu...

Chegaram ao mesmo tempo, para mim em Florença, o Sol e um e-mail de Luiza, minha querida amestra, isso mesmo, amestra, amiga que é também mestra. E não só minha, mas de tanta gente boa, feito Manu, que um dia compôs um poema canção para Luiza, dando palavra e som a um sentimento meu, de Fabiano e de todos Os interno do pátiO:

O nosso amor, Luiza,
tem que ser vivido
de forma musical.
Nosso tesouro é vida,
são nossas amizades
etc. e tal.
Vi o sol nascer,
parecia com você,
tinha o seu calor,
brilhava forte feito amor.

Então a metáfora de Manu, de que a Luiza é o Sol, aconteceu para mim nesse dia 3 de abril, uns dias depois do aniversário de Luiza, que eu esqueci, mas que prolongo aqui, nessa revivência de metáfora.

Eu nem sabia que Luiza estava acompanhando meu diário de viagem. E o que a tirou de seu silêncio foi a referência que fiz à Primavera, de Botticelli. Vejam que basta isso para que o quadro de Botticelli assuma uma grande importância. Não fosse pelo traço, pela composição, pelas cores, apenas por isso já valeria a pena Botticelli tê-lo pintava. Apenas por provocar em mim um comentário, e por esse comentário ser motivo suficiente para Luiza me escrever. Não é só a Chuva (de Fabiano), mas também a Primavera (de Botticelli), que faz a gente se encontrar.

E fez também com que se encontrassem um pombo e uma pomba, que pude ver da janela da sala de estudos do Istituto Italiano, que tem vista para o Duomo. Vejam que um pouco de sol, marcando verdadeiramente o início da primavera, faz com que se realize também a metáfora, já quase um clichê, do “casal de pombinhos”.



É... com a primavera vem o sol e, com ele, as saias sem meia-calça por baixo, os decotes, os ombros à mostra. Até mini-saia eu vi ontem em Florença (possivelmente de uma finlandesa ou de uma norueguesa). O sol faz derreter os gorros, as luvas, os casacos. As pessoas, ao primeiro sol de primavera, ficam à flor de sua própria pele.

Ontem foi um dia de filmes. Italianos, claro, pois tenho que praticar a compreensão da língua. Às sexta-feiras, no Istituto, são exibidos clássicos do cinema italiano. Ontem fiquei para assistir a “I Girasoli”, do Vittorio di Sica. Um filme antigo, até com a imagem meio gasta, ainda mais sendo projetada por um datashow numa parede que um dia já foi branca. Mas foi só o filme começar de verdade, foi só ele realizar aquilo que todo bom filme realiza, foi só ele me convencer de que não se tratava de filme, mas da própria realidade, bastou isso, para que os girassóis fossem girando na minha cabeça e produzindo maravilhas. Que filme lindo! Lindo como Sofia Loren e lindo como, possivelmente, Marcelo Mastroianni. Que história tocante de uma amor pequeno que ficou grande, de um amor grande que ficou perdido, de um amor perdido que foi reencontrado, de um amor reencontrado que se tornou desencontrado, de um amor desencontrado que se viu partido, de um partido que se junta no coração de qualquer pessoa que já girou em seu peito um amor de sol. Saí do Istituto assobiando a música tema do filme, como se quisesse soprar no ouvido das pessoas que passavam por mim a semente de girassóis de amor.



Quase tudo em mim se adaptou – para melhor ou para pior – ao fuso horário na Itália, menos meu cochilo. Quase todo dia, tiro um cochilo às 18h30, 13h30 aí no Brasil. Depois do cochilo de ontem, mais um filme, mais uma vez no cinema Fulgor, ao qual eu poderia ir a pé. Fui sem nenhum filme em mente, pensando apenas em assistir a um filme italiano. Cheguei à bilheteria 10 minutos antes de começar “I Mostri Oggi”, que eu traduzi corretamente como “Os Monstros Hoje”, embora não tenha entendido direito a que se referia. Bastaram poucos minutos para eu entender: humor ácido, irônico e sarcástico, no melhor estilo italiano de “Parente, Serpente”. O filme trazia pequenas histórias, independentes umas das outras, em que se mostrava o lado menos bom, para usar um eufemismo, do gênero humano. De um torcedor do Roma que seduzia uma paraplégica para roubar-lhe a cadeira de rodas e garantir, como deficiente, um melhor lugar no estádio de futebol até uma psicóloga que induz o marido de sua amiga ao suicídio. Em outros tempos, eu teria rido até me acabar. Dessa vez, ri menos. Ultimamente, esse tipo de humor já não me faz rir tanto.



Voltei caminhando, ouvindo o sussurro do Arno. Em casa, não tive coragem de enfrentar a água, mesmo quente. Gato congelado tem medo de água quente. Um dia sem banho, mas um dia feliz: o sol, a primavera (enfim!), Luiza, girassóis... antes de dormir, a repetição do que mais tenho feito durante essa viagem: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto...”

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Google X Bigi

Ontem resolvi ir ao teatro. Tudo certo, espetáculo escolhido, trajeto definido, bilhetes do teatro e do ônibus comprados.

Quando fui me despedir de Bigi, dizendo que pegaria o ônibus 6 e depois o 7 (conforme havia visto no Google Maps), ela disse que o 7 não me levaria ao teatro. Abrimos o mapa de Firenze, confabulamos um pouco, ela ligou para um serviço de informações e eu, em meu aperreio, temia perder a hora do teatro. Ao final, Bigi falou que eu deveria pegar o 20 ou o 14, após o 6. Peguei o 6 e, dentro do ônibus, ainda não havia me decidido se obedeceria à Bigi ou ao Google. Se eu desobedecesse a Bigi, seria difícil encará-la no dia seguinte, quando certamente perguntaria como foi meu trajeto. Se desobedecesse ao Google, perderia a confiança nas pesquisas de futuros trajetos. Durante aqueles 15 minutos até a Piazza San Marco, me ocorreu que o inferno não é simplesmente a falta de comunicação, como diz Pepeta, é também a dúvida, a incapacidade de escolher entre uma alternativa e outra. O que, no fundo, talvez seja só uma incapacidade de entender a comunicação da Vida, que nos indica qual a melhor escolha. Quando desci na Piazza San Marco, já havia decidido. O 20 ou o 14, conforme Bigi? Não. Então o 7 do Google? Também não. Resolvi pegar um táxi. É, há que se ter esperteza para escapar do inferno.

Outra esperteza, para não correr o risco de não entender o que se falava no teatro, foi escolher um espetáculo de mímica (Splash) de um grupo espanhol. Comprei ingresso na segunda fila, mesmo correndo o risco de acabar participando ativamente do espetáculo caso ele fosse interativo. Ao meu lado sentaram uma italiana e seu filho de uns 7 anos. Aliás, havia várias outras crianças no teatro, mesmo o "texto" da "peça" não sendo muito adequado em alguns momentos. A italiana era muito simpática, e, quando soube que eu era brasileiro, até cantou um pouquinho de "Mas que nada" e de "Isaura". Gente, que é isso? Tem muito brasileiro que nem conhece "Isaura". E a mulher era impressionante, porque cantou junto várias músicas (de várias nacionalidades) da trilha sonora do espetáculo.



O espetáculo terminou com uma divertidíssima guerra de bolas de meia entre os atores e a platéia. E o filhinho da italiana participou com a máxima disposição, entrando inclusive em "luta" corporal com um dos atores. Brincou e brigou tanto o menino que, quando sua mãe o procurou ao final do espetáculo, não o encontrou mais. Ela ficou lá na porta da sala, procurando, esperando... Eu, ao sair do teatro, vi o menino e retornei para avisá-la. O reencontro foi bonito ("Felippo! Felippo!) e me fez imaginar como foi quando me perdi de meus pais ainda criança. É um episódio que minha mãe conta, mas do qual não tenho uma lembrança direta.

Findo o espetáculo, eu tinha um problema: como voltar. Sim, porque Bigi parecia estar mais certa do que o Google, e eu não podia confiar no trajeto que havia planejado online. Além do mais, o teatro ficava fora da zona exposta no mapa da cidade. Eu havia literalmente passado dos limites. Pensei até em perguntar para a italiana como poderia pegar um táxi ou um ônibus, mas temi que ela achasse aquilo algum tipo de abuso ou que se oferecesse para me dar uma carona. Não sei por que, mas aquele pensamento me deu um certo medo, e preferi caminhar no sentido oposto ao que o táxi tinha usado para me trazer. Uns 600 ou 700 metros depois, cheguei a uma praça, Piazza Leopoldo. Havia um rapaz na parada e ele falou que um ônibus passaria dali a uns 20 minutos com destino à estação, coisa que pude comprovar no poste da parada. Aliás, essa é uma verdadeira maravilha italiana: em cada parada de ônibus existe um poste onde estão afixadas as rotas e os horários de todos os ônibus que param ali.

Quando cheguei à estação, o motorista falou que eu teria que esperar 40 minutos, até a meia-noite, por um ônibus que me levaria para perto de casa. Como não gosto muito de esperar, e essa já seria a segunda vez na noite, resolvi caminhar o restante do percurso: aproximadamente, a mesma distância que faço da escola pra casa todo dia.

O frio era suportável, sinal de que a primavera está mesmo chegando, e o céu estava parcialmente claro, me permitindo a companhia da minha lua favorita, a lua-meia, que aqui, assim como em Brasília, é inclinada, e não a lua-meia cama, horizontal, que acho genial e que se pode ver em Fortaleza ou Teresina.

Só quando eu já estava para dobrar a esquina final foi que a Lua se despediu, cobrindo-se ela mesma com um grosso lençol de nuvens, mas translúcido o bastante para que se visse o brilho dessa mãe que vela por nós toda noite.

E eu também fui dormir feliz: pelo teatro, pela mãe e pelo filho, pela caminhada, pela Lua... por ser o mundo esse lugar impressionante e espetacular que se desdobra aos pés e aos olhos de um viajante.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Marmúsica e riofilme

Hoje o Sol tentou ensaiar a primavera. Mas um frio dos invernos invadia sempre o palco, atrapalhando o ensaio.

Caminhando ao longo do Arno, cujo volume tem aumentado com a chuva dos últimos dias, ali pela altura da pescara, onde há uma mudança de nível, a queda d'água faz um som que lembra o mar e faz esquecer a noite mal dormida e o iminente atraso para a aula.

Acordei às 4 da manhã para dar efeito ao laxante que eu tinha tomado na noite anterior. O remédio parecia atravessar meu corpo em ondas, e eu pensei que iria desmaiar. Consegui dormir um pouquinho antes do despertador tocar às 7h30. Não adiantou nada ter colocado o despertador para mais cedo pois o sono me fez ficar mais tempo ainda na cama, pensando se deveria mesmo ir à aula. Mas pra quem está lendo Pinocchio, e tem acompanhado os trágicos acontecimentos que se sucedem sempre que o boneco resolve faltar à escola, achei melhor não arriscar. Mas eu estava falando do Arno, que me lembrava o mar...

Fechei os olhos por um momento, na esperança de ser teletransportado até a Praia do Futuro, mas a concentração na audição só me fez perceber que há uma grande diferença entre o som do rio e o do mar. O som do rio é sempre contínuo. O do mar reflui. O rio é como filme que passa e não volta. No máximo um filme que, se gostamos muito, vemos quatro ou cinco vezes. O mar é feito música que ouvimos vezes seguidas, e que parece mesmo um círculo perfeito em que o final emenda no início. Há beleza nos dois sons, mas o mar se assemelha mais à minha natureza repetitiva.

Mesmo com tais audições e reflexões, cheguei pouco mais de um minuto atrasado, e não perdi nada da aula. Quando acabamos um exercício, Maíra, uma brasileira, cochichou para mim, apontando para as minhas costas: "Eduardo, guarda! La primavera di Botticelli". Virei-me e olhei tão demoradamente quanto pude. Porque aqui, até agora, só se pode ver a primavera nos quadros. E, mesmo assim, a primavera de Botticelli ainda é meio sombria. Talvez o original seja melhor: terei a oportunidade de vê-lo na Galeria Uffizi.

Pra semana que vem, a meteorologia promete que a temperatura vai passar dos 20º e que o Sol vai fazer una anteprima della primavera. Só me resta esperar -- de casaco, cachecol e luvas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Viva Bangladesh!

Num dia, estabeleci minha rotina perfeita em Florença. No outro, a desobedeci. Melhor assim: tenho que me cuidar para não cair em meus tradicionais extremos.

Acordei cinco minutos mais cedo, fui caminhando para a escola, cheguei em cima da hora, e as duas primeiras aulas, de gramática e conversação, foram boas. A turma não é homogênea, então às vezes me sinto um burro; outras vezes, penso que estou indo bem. As professoras, bonitas, são tão simpáticas que quase chegam a ser lindas. Os colegas e as colegas são todos muito gentis. No intervalo, entre uma aula e outra, tratei finalmente de comprar um dicionário de italiano-italiano na livraria vizinha à escola.

Minha intenção, após as aulas, era almoçar rapidamente e voltar para a escola para acessar a internet. Mas me ocorreu que eu poderia me socializar um pouco, então saí pra almoçar com algumas colegas: duas brasileiras, uma boliviana, uma suíça e três japonesas. Depois de rodar um pouco na chuva, escolhemos um restaurante e sentamos na rua, sob um toldo: aqui é muito comum os restaurantes se apropriarem das ruas, sempre com toldos e gradeados, para colocar as mesas. Fomos atendidos por uma garçonete romena que alternava entre uma antipatia insuportável e uma gentileza sorridente. Um caso típico e agudo de bipolaridade ou transtorno obsessivo-compulsivo. O almoço foi muito divertido, com a gente misturando os vários idiomas: português, espanhol, japonês e, claro, italiano.

De volta à escola, já perto das três da tarde, comecei a botar a correspondência eletrônica em dia enquanto esperava por uma pequena apresentação, na própria escola, sobre as atrações culturais de Florença para o mês de Abril. Acabei descobrindo que já estava meio antenado, visto que andara lendo folhetos durante o final de semana. Eu ainda estou sem querer ver muito as coisas. O Duomo, por exemplo. Ainda não tive vontade de entrar na principal atração turística de Florença. Estou vivendo como se sempre fosse ter isso à disposição. Na verdade, hoje até senti um pouquinho de impaciência em relação aos turistas. Vejam só! Mas daqui a pouco será hora de retomar um pouco o espírito de Roma e sair a bater perna.

No caminho de volta pra casa, dei uma passada numa sorveteria que havia sido indicada por uma guia da escola. E como era boa a indicação. O sorvete de lá só perdia, para o meu paladar, para o sorvete de "crema de edoardo" que tomei em Bologna. Uma delícia!

A volta para casa foi sob chuva, de guarda-chuva verde em punho e carregando o peso da mochila e do notebook. A impaciência com o clima foi crescendo, afinal já era pra estarmos na primavera há mais de uma semana. Cheguei em casa irritado com o tempo. Resolvi enfrentá-lo, mostrar que eu também era forte. Saí de casa novamente, dessa vez sem casaco, luva ou guarda-chuva. Levei apenas o cachecol, que tem se mostrado o melhor amigo do homem. E foi assim que um brasileiro, saudoso dos trinta e poucos graus de Brasília, Fortaleza e Teresina (nesse caso, trinta e muitos graus), saiu à rua apenas de camisa enquanto os italianos passavam, para um lado e para o outro, todo encapotados e protegidos por guarda-chuvas.

Mas eu não havia saído a esmo: meu destino era uma lavanderia self-service, uma wash & dry. Para comemorar minhas duas semanas de viagem, eu havia decidido lavar roupa. Nesses quatorze dias, eu havia lavado apenas uma calça, no hotel em Bologna, e confesso que já estava me incomodando o cheiro meio amargo de algumas camisas, embora aqui quasi não se transpire devido ao frio. A máquina automática não dava troco, e resolvi ir a uma pequena lanchonete quase em frente para comer alguma coisa e ter dinheiro trocado. Optei por um pedaço de pizza e uma coca-cola natural, já que não havia nada quente para beber. Foi o primeiro pedaço de pizza não muito bom que comi na Itália, e por isso não recomendo que ninguém coma pizza numa lanchonete paquistanesa. Quanto à coca-cola, que eu não bebia há semanas, nunca me desceu tão mal: era gostosa, mas me deixou com a sensação de ser um balão. Se eu tivesse um palito de dente à mão, juro que teria enfiado na minha barriga só pra ver o papoco. Como não tinha palito, parti para um arroto básico, que funcionou.

Com dinheiro trocado, voltei à lavanderia. Mas confesso que só consegui lavar minha roupa com a ajuda de um homem de Bangladesh. Aliás, um viva à Romênia (pelo primeiro dia) e outro a Bangladesh (por este). Eu só tinha usado esse tipo de serviço uma vez, em Fortaleza. Depois que o homem (sinto muito, mas não gravei o estranho nome dele) me explicou como funcionava, achei tudo muito simples: meia hora de lavagem, meia hora de secagem, e a roupa está como nova. Que maravilha! Agora só me resta imaginar quem será meu próximo salvador na Itália: alguém de Bali ou da Nova Zelândia?

Com roupa nova na mochila, voltei feliz para casa, caminhando no frio e na chuva miúda. Cheguei tão cansado que até pensei na possibilidade de não tomar banho. Mas isso implicava em ter de tomar banho na manhã seguinte: melhor agora então. Banho tomado, li um pouco e dormi.

Hoje acordei na mesma hora e, como de costume, conversei um pouco com Bigi no café da manhã. É como se eu fizesse um teste oral a cada dia. Minha conversa com Bigi é um bom indicador de meus progressos no idioma. E parece que estou melhorando, pois hoje foi tudo mais tranquilo, não fiz aquela cara desesperada de quem quer dizer alguma coisa e não sabe como.

Estava 10 minutos atrasado em relação ao dia anterior, então resolvi pegar o ônibus ao invés de caminhar: acabei chegando os mesmos 10 minutos atrasados à escola, a única diferença é que meu corpo não tinha feito exercício. Está na hora de acordar ainda um pouquinho mais cedo, tlavez 7h30, de modo a vir caminhando de todo jeito.

As aulas de hoje foram boas, e creio que poderei acompanhar sem ficar estudando em casa. Hoje almocei só um sanduíche, já de olho no "melhor sorvete do mundo". Deixei minha companheira mexicana comendo sua salada e seu ravioli (parecia maravilhoso!) e fui tomar gelato no frio. Sempre uma delícia.

De volta à escola, uma checagem dos e-mails, incluindo algumas respostas. Aproveitei também para escrever este diário. A bateria do notebook está aguentando bem: 50% em uma hora e meia. Mas acho que vou voltar pra casa e descansar um pouco. No começo da noite, vou ver se falo com Alba de uma lan house e, dependendo da disposição, faço um passeio noturno, agora que estou de roupa "nova" e peitando o frio.

A domani! Até amanhã!

segunda-feira, 30 de março de 2009

Sim senhora, professora

Ontem, logo que fechei o notebook, o bloco de desenho e o lápis, juntos, ao mesmo tempo, exclamaram:

-- Allora? Vai ficar só no blablablá ou vai desenhar alguma coisa?

Foi o jeito eu arriscar uns traços. Nada impressionante, como vocês podem ver aí ao lado, embora eu achei que me sairia pior. Creio que o mérito é do papel, do lápis e borracha florentinos. Primeiro me vieram à mente os guarda-chuvas, depois as borboletas. Então resolvi desenhar olhando para algo, no caso um adesivo que peguei na feira de Bologna e que colei na tampa de meu notebook.

Depois fui tomar um banho. Aliás, existe uma coisa comum em todos os lugares que já passei: o chuveiro-ducha, se é que posso chamá-lo assim. É uma ducha grande que, quando fixada numa espécie de coluna, vira um chuveiro; ou, dizendo de uma outra forma, é um chuveiro destacável que, quando tirado, se transforma numa ducha. Eu, particularmente, gostei da idéia. Alguém sabe se isso está disponível no Brasil?

Depois do banho, cama. Com Pinocchio. Interessante que, na minha lembrança, Pinóquio era uma historinha curta sobre um boneco de pau que gostava de mentir. Mas que nada! É uma história longuíssima, e Pinocchio passa por um tanto de coisa, mete-se em todo tipo de situação, fala com os bichos... O boneco apronta tanto que às vezes chego a sentir raiva dele. Mas é uma história interessante. E poder começar a ler em mais uma língua, agora italiano, é realmente maravilhoso.

Dormi com frio, aquecido pelas cobertas, mas acordei de madrugada com uma sensação que fiquei na dúvida se poderia chamar de calor. Era uma espécie de ardência. Até fiquei pensando se era algum tipo de doença ou alergia, mas dormi logo em seguida. Quando acordei, estava bem, então deve ter sido só o calorzinho das cobertas e do aquecedor, embora Bigi tenha me dito, pela manhã, que o aquecedor é automaticamente desligado entre uma e cinco da manhã: “porque um pouco de frio faz bem pro sono”.

Antes de passar adiante, preciso falar um pouco mais de uma das cobertas, porque as mulheres me perseguem surpreendente e maravilhosamente. Não, eu não recebi a visita de ninguém no meu quarto à noite, visto que ele estava fechado à chave. Falo da própria coberta, que tem várias vezes o símbolo de Vênus, a Deusa do Amor, gravado na borda, e, ao lado de cada símbolo, a palavra “mulher” escrita num idioma diferente. Dormi me sentindo abraçado por mulheres do mundo todo.

Conforme combinado, Bigi havia preparado o café às 8h. (Ela, na verdade, me disse que prefere que eu a chame pelo sobrenome, mas aqui, no diário, continuarei chamando-a pelo primeiro nome, até pra melhor garantir sua privacidade.) Quanto ao café, era simples e bom: caffelatte, pão em torradas, burro (manteiga, gente!), geléia, ricota. Terminei o café às 8h25 e não tive tempo calmo suficiente para fazer meu cocozinho, que talvez tenha que mudar de horário para a tarde ou a noite.

Peguei o ônibus 6, cheio quase lotado. Fazia uns 20 aos que eu não pegava um ônibus para ir à escola. Tudo bem, em Teresina eu pegava ônibus para ir à universidade. Mas eu era professor-pesquisador, e não aluno. De todo modo, pegar ônibus cheio me fez pensar em ir caminhando para a escola, que deve levar no máximo meia hora.

No Istituto Italiano, a alegre redescoberta do sentido de uma palavra comum, corriqueira, ordinária: “secretaria”. Nunca havia me ocorrido nada de especial sobre a palavra “secretaria”, mas quando vi no Istituto uma placa com a indicação “segreteria”, eu sorri de alegria por descobrir o segredo daquela palavra. Quer dizer, então, que secretaria é um lugar de segredos? E, por consequência, que a secretária é uma repositória de segredos, uma espécie de confidente? Que coisa maravilhosa! Esse é um dos grandes benefícios de aprender outras línguas: a similaridade com algumas das palavras de nossa própria língua faz com que descubramos significados ocultos naquilo que falamos no dia-a-dia.

Ia tudo bem, no Istituto, quando a minha confidente, a secretária, Giuliana, perguntou se eu queria entrar no nível 1 ou se preferia fazer o teste. Bom, se eu estava entendendo o que ela estava dizendo, poderia pelo menos arriscar o teste. Quando entrei na sala, já tinha um monte de aluno escrevendo, o que me levou a pensar que cheguei atrasado. Como não estou usando celular, e como há muito tempo não tenho relógio, o tempo aqui na Itália, pra mim, tem sido uma coisa meio inexata. Pois foi só eu tirar o casaco e o cachecol, e começar a fazer a prova, pra perceber que eu deveria ter estudado um pouquinho mais de italiano antes de chegar aqui. Claro que eu havia me preparado. Eu tinha visto filmes e programas de TV, tinha ouvido discos e rádios,tinha lido artigos e textos, tinha até mudado o idioma de meu e-mail para o italiano, mas não tinha me dado ao trabalho de decorar umas conjugações verbais. E era basicamente disso que se tratava a prova, a qual deixei em branco pelo menos pela metade quando a entreguei.

Alguns minutos depois, na mesma sala, diante de todos, a professora me chamou para o teste oral. Na verdade, ela chamou “Eduardo, de Brasile” e, enquanto eu caminhava do fundo da sala até a mesa da professora, um outro homem sentou na cadeira em frente a ela. Eu disse “Anch’io sono Eduardo di Brasile”, “eu também sou Eduardo, do Brasil”. Ela então mostrou a prova para que reconhecêssemos a letra. Era minha. Saudei meu xará, ele se levantou e eu me sentei. No teste oral, devo ter me saído um pouco melhor do que no teste escrito porque a professora, incrivelmente simpática, disse que ia me colocar no nível 2. Claro que ela, olhando novamente a prova e tirando um pouco a simpatia da cara, completou: mas você vai ter que estudar! “Sim senhora, professora”. E assim eu me vi de volta aos bancos escolares.

Quando todos terminamos o teste, os diretores do Istituto, um casal, falaram sobre a escola e sobre o dia-a-dia em Florença. Ele falaram por pouco mais de uma hora e o mais impressionante é que, até onde posso avaliar, eu entendi tudo o que eles disseram. E eles explicaram tão bem que nenhum de nós, a maioria vindo a Florença pela primeira vez, fez uma pergunta sequer. Mentira, um homem que estava sentado atrás de mim perguntou como se fazia para alugar uma bicicleta. A única pergunta que eu queria fazer já me fora respondida durante a exposição: “quem tivesse laptop, poderia trazê-lo e usufruir da conexão gratuita sem fio, de uma às seis da tarde,desde que usasse apenas a bateria do laptop, sem ligá-lo na tomada”. Será que a energia aqui é mais cara do que a conexão? Bom, isso não importa muito. É suficiente saber que terei umas duas horas de internet por tarde, de segunda a sexta-feira.

Isso me fez começar a conceber minha rotina nas próximas quatro semanas: acordar às 7h30, fazer a higiene matinal, tomar café às 8h, sair para a escola às 8h30, assistir aulas de 9 a 13h, almoçar perto da escola (ah, que delícia cada coisa que tenho almoçado), voltar por volta de 14h30 para acessar a internet, retornar para casa. Em alguns dias, posso ficar na escola para a programação cultural das 16h (estou particularmente interessado nos filmes), em outros dias posso guardar a energia para ir à noite ao teatro (estou pensando em comprar o PASSTEATRI, um passe que dá direito a assistir seis espetáculos por um preço reduzido).

Almocei num dos restaurantes indicados pela escola, que ficava a umas três quadras de distância. A comida, um Lunghini alla Pescara, estava deliciosa. O preço era até bom, 7 euros (não converta, não converta, não converta), mas me cobraram uma espécie de 10%, o coperto, que na verdade era uns 30%, 2 euros. Acho que, a partir de amanhã, vou comer lá onde comi as borboletas: gostoso, ainda um pouco mais barato e vizinho à escola. Embora seja difícil resistir a experimentar novos restaurantes ou então cair na dieta bolognesa de vez em quando: pizza, pizza, pizza.

Às duas, estava de volta ao Istituto porque haveria um passeio guiado pela cidade. Pensei que ia ser uma coisa rápida, só situando a gente, mas desconfiei de que seria algo diferente quando a guia falou que terminaria perto de 18h. Acompanhei o grupo, de todo modo. A guia ia parando nos prédios históricos e falando aquelas coisas que os guias falam. Cansei da brincadeira na terceira explanação, pedi licença e voltei caminhando pra casa. O fato de algumas lojas estarem fechadas, porque era o horário de pranzo, me lembrou de que eu também merecia um cochilo. Perto de casa, parei pra comprar água na loja de um imigrante em cujo país não se deve tirar cochilo depois do almoço, porque a loja estava abertíssima.

Em casa, fiz – graças a Deus – um cocozinho e tirei uma soneca de quatro às cinco. Comi um cioccolato, para tirar o amargo da boca, e peguei logo um livrinho de italiano para viagem e abri na página de gramática: “Sim senhora, professora, vou estudar”. Fiquei na cama, recitando verbos por mais de uma hora. Agora já tenho uma idéia melhor de como falar as coisas no presente, no passado e no futuro.

Com o fim da tarde, o frio começou a atacar e vim para o computador escrever o diário. Depois jantar, banho, desenho, Pinocchio, cama. Dormir cedo, acordar cedo, chegar à escola na hora, receber o material escolar e recomeçar, pra valer, minha vida de estudante. Pelo menos pelas próximas quatro semanas. Porque estudar cansa – isso não tenho como esquecer.

domingo, 29 de março de 2009

O dia em que comi borboletas

Botei o despertador para 8h30, ou seja, para 9h30, já que o horário de verão, aqui chamado de “ora legale”, entrou em vigor de madrugada. O engraçado é que, aqui, a mudança de horário não se dá à meia-noite, mas às duas da manhã. Será que esse mesmo horário, com duas horas de acréscimo, vale também para o retorno de Cinderela para casa?

Fiz um pequeno esforço para sair da coberta quentinha e me dirigi à sala de café da manhã, onde meu pratinho, com um carioquinhazinho (deve ser um terço do nosso carioquinha) e um croissant, já estava me esperando. Na pensão, não tem boca livre, não. Cristina preparou um cappuccino, peguei dois tabletes de burro, quer dizer, de manteiga, e pronto. O bom é que a gente não enche a pança como costuma fazer nos cafés da manhã dos hotéis mais chiques.

Cristina disse que eu não precisava sair exatamente às 10h30, conforme indicado nos cartazes, que eu poderia sair às 11h ou um pouco mais, e eu aproveitei esse tempo para dar uma entradinha na internet, responder uns e-mails e praticamente zerar a minha caixa de entrada. Não queria deixar nada pendente, pois eu não sabia se teria acesso na casa da senhora Bigi.

Saí do Tourist House, na Via della Scala nº 1, simples mas que recomendo a todos, de mala e cuia de cabeça pra baixo, ou seja, com um guarda-chuva. Desde ontem no final de tarde que chove em Firenze e, enfim, pude inaugurar meu guarda-chuva verde, embora tenha dado não mais que vinte passos debaixo dele, pois havia uma parada de táxi logo na rua transversal (lembrem-se de que, aqui, encontrar ruas paralelas ou perpendiculares é uma raridade). Todos os táxis que peguei até agora na Itália custaram entre 9 e 11 euros. Normalmente o que pago em Brasília. Não, não façam a conversão, eu já disse que “quem converte não se diverte” e, além do mais, estou cultivando dentro de minha cabecinha imaginativa o pensamento de que eu devo ganhar em euros. Não, não há nada de absurdo nisso. Absurdo seria desejar ganhar em libras esterlinas.

O táxi me deixou, ainda debaixo de chuva, em frente ao número 13 da Via de Monte Oliveto, e qualquer pessoa pode ver, no Google Maps, uma panorâmica da rua em que estou hospedado [basta clicar no link "vista da rua" que aparece dentro do balaõzinho branco]. Toquei a campainha e a senhora Bigi abriu automaticamente a porta, descendo em seguida para me recepcionar na sala de espera do prédio. Subimos, de elevador, até o segundo andar. Bigi simplesmente desandou a falar italiano e eu estava só esperando o momento em que ela dissesse, em inglês, “may I continue speaking italian?”, “posso continuar falando italiano?”, ou, pelo menos, “capisce?”, “está me entendendo?”, mas esse momento nunca aconteceu. Sorte minha que eu conseguia entender quase tudo que Bigi falava. Alguns minutos mais tarde, quando estávamos sentados à mesa da sala, só pra me certificar, perguntei “parla inglese?”, “fala italiano?”. “Non, non”. E eu achei maravilhoso, porque não poderia usar o inglês, que tem sido minha muleta durante esses dias de viagem. Na casa de Bigi, não terei alternativa: comunicação só em italiano, por mímica ou telepatia.

Meu quarto é pequeno (entre 12 e 15 metros quadrados), mas muito simpático e bem distribuído. Tem uma cama de solteiro, rodeada por uma prateleira (excelente para colocar livros, revistas, dicionários, guias de viagem...), uma mesa com tampo de vidro ampla o bastante para o abajur, o notebook, o mapa de Firenze, a água e outras coisinhas mais, e dois armários apropriados para guardar de tudo: sapatos, roupas, cabos (impressionante a quantidade de cabos, carregadores e adaptadores que eu trouxe), mochila e mala. Também tem um aquecedor (fundamental, embora o quarto e a casa, como um todo, pareçam naturalmente quentinhos; ou será que o aquecedor já está ligado?). Mas o que me cativou foi a janela de vidro que cobre toda a extensão da parede e que, mesmo com a cortina, que é verde e creme e translúcida, permite ver uma árvores altas e lindas, e as sacadas do prédio vizinho, muito bem arborizadas. A mesa defronte da janela me pareceu o lugar perfeito para escrever e para outra coisinha: desenhar.

“Você desenha?!” Sim, não, quer dizer, mais ou menos. Eu gostava de desenhar e pintar quando criança, até colocava meus quadros na parede. Mas por volta dos 9 anos, o desenho e a pintura sumiram da minha vida. Em Teresina, em determinada época, eu decidi desenhar todo dia. Devo ter feito isso por uns sessenta dias seguidos, fazia parte da minha rotina maravilhosa de acordar sem despertador, caminhar à beira-rio, beber uma vitaminada caprichada, fazer um cocozinho, tomar banho ouvindo rádio, fazer a revisão diária do pathwork, meditar e desenhar. Só depois disso tudo é que eu ia para a universidade. Eita vidinha boa aquela! Preciso tê-la de volta qualquer dia desses. Melhorada, é claro.

Mas voltando ao desenho e à pintura. Tudo em Firenze convida a isso. Os museus, as galerias, os artistas produzindo no meio da rua, as cartolerias (papel aqui se chama “carta”) cheias de cadernos, lápis, tintas e pincéis. Então bateu novamente a vontade de desenhar.

Conversando com Bigi, acertei os detalhes da estadia: café da manhã, chave do apartamento, etc. Fiz parte do pagamento e perguntei sobre ônibus para o Istituto Italiano (tem um que pára aqui na esquina e vai até a porta do Istituto), sobre algum supermercado nas proximidades (tem um a menos de 500 metros) e sobre internet (Bigi disse que ainda não tem, mas que já havia encomendado, embora o tempo de instalação possa levar uma semana). Depois da conversa, resolvi sair para meu programa preferido na Itália: caminhar. Só que eu tive de dizer isso em italiano, com a ajuda de Bigi, claro: “Io vado passegiare per vedere d’intorno”. Claro que deve ter um tanto de erro aí, mas já era um bom começo: “vou passear para ver a vizinhança”. E fui.

Comecei pelo supermercado. Estava curioso pelo nome. Bigi tinha dito algo como “S lunga”, e eu estava me perguntando se a bodega de Seu Lunga, o famoso antipático do Ceará, já tinha filial internacional. Talvez. O nome do supermercado é “esselunga”, que quer dizer... não faço a mínima idéia. Dei uma entradinha só pra ver quão grande era. Uma espécie de Mercadinho São Luiz do tempo em que havia mercadinhos São Luiz. Saí sem comprar nada, pois voltaria mais tarde.

Decidi pegar o ônibus para ensaiar o trajeto que farei amanhã para o Istituto Italiano. Era o ônibus de número 6, que passou logo, logo. Em Roma, só peguei metrô. Em Bologna, era possível comprar a passagem, de 1 euro, no próprio ônibus, colocando moedinhas numa máquina. Quando o bilhete era cuspido da máquina, era só convalidar. Na Itália toda existe essa mania: você compra o bilhete, de trem ou de ônibus, mas tem que convalidar numa maquininha que dá uma mordida no bilhete e registra a data, a hora, o ônibus, o pai, a mãe... Isso tudo, me parece, apenas para desempregar o trocador. Coisa de gente civilizada: você pode andar no ônibus sem pagar, se quiser. Só torça para não aparecer alguém fiscalizando. O valor da multa é de não sei quantas passagens. Mas o fato é que entrei no ônibus 6 e não havia a maquininha de vender bilhete, só a de convalidar. Tive que me dirigir ao motorista, que me vendeu um bilhete por 2 euros (já falei pra parar de ficar convertendo em reais, assim você não vai se divertir). Mais tarde descobri, comprando um outro bilhete numa tabacaria, que o bilhete normal custa 1,20. Eu pagara 80 centavos a mais por um “biglietto a bordo”. Aqui custa caro falar com o motorista.

Desci do ônibus na Via de Martelli, a rua do Istituto, praticamente de esquina com o imponente Duomo, e fiquei pra lá e pra cá tentando localizar o número 4. Niente! Nada. Resolvi não me preocupar com isso, e nesse exato momento senti falta de minha câmera fotográfica digital. Não, eu não tinha sido roubado, havia deixado a câmera em casa mesmo. Mas é que lamentei o fato de não poder tirar uma foto dos guarda-chuvas. Eu pensei que eu era o rei da cocada colorida, a única pessoa na Itália a ter um guarda-chuva de uma cor chamativa. Quanto engano! A rua estava pintada de guarda-chuvas de todas as cores. Pense numa cor... ela estava lá: branca, preta, marrom, lilás, verde, amarela, azul, vermelha... E não bastasse haver todas as cores, ainda havia combinações de cores: guarda-chuvas vermelho com branco, azul com amarelo... Está achando pouco? Pois também havia guarda-chuvas de múltiplas cores, como se fosse um arco-íris. Que espetáculo! E como era bom participar daquela explosão de cores com meu discreto guarda-chuva verde. Para vocês terem noção da importância dessa aquarela, tenho que lembrar que as cidades italianas que conheci até agora são todas em tons pastéis. Não vi nenhuma casa, prédio ou apartamento pintado de verde, azul, amarelo. Tudo vai de um vermelho barro a um cinza, passando pelo creme. Agora, a beleza tem seu preço, e o preço eram os esbarrões de guarda-chuvas naquela multidão que circulava pelas ruas do centro histórico de Firenze. Eu tinha que procurar imediatamente um refúgio. Adivinhem o que encontrei?

Isso mesmo, uma libreria: seca, quentinha, enorme, lotada de livros. Logo após a porta, um monte de guarda-chuvas e sombrinhas no chão. Aliás, uma repetição do que eu tinha visto no supermercado: um monte de guarda-chuvas acumulados na entrada. Eu fiquei naquela, deixo-não-deixo, deixo-não-deixo, deixo-não-deixo... deixei. Envolvi-me tanto com os livros que até me esqueci que tinha deixado um guarda-chuva na porta. Dei uma olhada geral em todas as sessões da livraria, que eram muitas. Fiquei particularmente atraído por um livro com as fábulas de Andersen e por um manual de desenho. Também dei uma olhada nos dicionários de italiano (já está na hora de começar a usar um dicionário italiano-italiano). Mas resolvi não comprar nada, esperar pra ver como será o primeiro dia de aula, que tipo de material terei disponível no Istituto, coisas assim. E, ao sair, não é que meu guarda-chuva ainda estava lá, verdinho, verdinho.

Voltei para a chuva, mas apenas por poucos metros. Parei na frente de um restaurante pra olhar o menu, que sempre fica exposto na rua.

“O teu sorriso se abre feito uma borboleta”, “Tu sorriso si sfana feito una farfalla”. Quem assistiu e amou “O Carteiro e o Poeta”, há de lembrar dessa frase. E foi dela que lembrei quando vi “Farfalle de alguma coisa” no menu. Então, naquele restaurante, eles serviam borboletas? Não pensei duas vezes. Entrei já com água (colorida) na boca. Enquanto as borboletas não vinham, fiquei ansioso. Como seriam? Estariam já mortas ou ainda vivas? Viriam dentro de uma cúpula de vidro? Eu as comeria com uma espécie de canudo de boca bem larga? Que tipo de tempero elas tinham? Quase não acreditei quando o garçom colocou o prato sobre a mesa. Aquilo era melhor do que eu tinha pensado. Era uma massa no formato de borboletas. Dezenas de pequenas borboletas em meio a um molho branco e pequenos camarões. Espetei uma borboleta e pus na boca. Meu sorriso se abriu feito uma borboleta. Que delícia! Depois outra, e outra. As borboletas voavam cada vez mais rápido do chão do prato para o céu da minha boca. Até que... não havia mais borboletas no prato, apenas o gosto macio de dezenas de guarda-chuvas coloridos na minha boca.

Continuando o ensaio de rotina, tomei o rumo de volta para casa, a pé. Esse é meu pensamento, pelo menos enquanto o tempo estiver frio e fechado: ir de ônibus e voltar a pé, aproximadamente dois quilômetros e meio. Caminhei na direção do rio Arno, passando por uma espécie de Beco da Poeira (só lembrei da minha mãe) de Firenze. Cruzei a Ponte Vecchio e tomei a primeira paralela ao Arno, que na verdade é uma transversal ou radial (vocês sabem, eu já falei demais da geometria urbana da Itália). Essa rua vai dar direto no supermercado do Seu Lunga, onde comprei Activia (ah, essa globalização), torradas (para o jantar), chocolate (para qualquer hora) e sabão em pó (para lavar meias e cuecas). Devo confessar que também comprei papel, lápis, apontador e borracha. Sim, não resisti ao desejo de desenhar. O bloco de papel 200g está aqui ao lado do notebook em que escrevo. À esquerda, dentro de um copo, estão os lápis, a borracha e o apontador. A janela, em frente, espera só que eu abra as cortinas. E, qualquer hora dessas, eu volto a ouvir o ruído gostoso do lápis sobre o papel.

sábado, 28 de março de 2009

Ao longo do Arno, embaixo das cobertas

Hoje resolvi caminhar no sentido oposto ao centro, na direção da área residencial onde ficarei hospedado a partir de amanhã. É uma área que está nos limites do mapa que recebi na recepção da pensão, então não me surpreendi quando me perdi. Quando percebi que havia me perdido, eu estava numa praça não indicada no mapa, e havia uma quadra onde alguns meninos, e uma menina, jogavam futebol. Eram muitos meninos para uma só quadra, e a cena me trouxe uma lembrança antiga de colégio, minha primeira aula de educação física no 7 de Setembro. Como recreação, o professor Pires jogou uma bola no meio da quadra e todos nós, com 7 ou 8 anos de idade, corríamos atrás da bola. Não havia organização nenhuma: apenas um monte de meninos querendo dar um chute que fosse numa bola. Foi mais ou menos isso que eu vi hoje, na Piazza Torquato Tasso.



Já que estava perdido mesmo, resolvi vagabundear um pouco por alguns minutos. Fiquei pensando que talvez os italianos não tenham uma palavra que seja equivalente a "paralelo". Mas lembrei de que há excelentes matemáticos italianos, então concluí que os italianos apenas não aplicaram o conceito de paralelismo às ruas, que são curvilíneas e labirínticas. Quando me cansei da vista, tomei o rumo do rio, o Arno, que corta a cidade de Florença. Quando cheguei na beira-rio, vi uma mulher correndo e subi uma escadinha para ter acesso à pista de corrida e caminhada: uma linda visão.

Um pouco mais adiante, nessa mesma pista, havia um parquinho para crianças. Os brinquedos já tinham me impressionado na praça Torquato Tasso, mas só agora resolvi fotografar. Em Roma eu já tinha observado que as coisas são mais estilizadas, quase tudo recebe um toque estético, a coisa não é apenas a coisa, é a coisa preparada para o encanto. Bem interessante também é o chão que, na foto, aparece em cinza escuro ou em vermelho. Quando pisei nele, tomei um susto: é um chão com amortecimento, e a gente sente uma maciez deliciosa a cada passo.

Quando acabou a área de caminhada e do parquinho, resolvi dar uma entrada numa rua sem saída só pra fotografar uma parede de cartazes. É muito comum aqui, em Firenze, a divulgação de eventos culturais por meio desses grandes cartazes. Fotografei vários deles pra depois conferir exatamente os horários e os locais das exposições e dos shows.

Logo em seguida, eu me encontrava na rua que margeia o rio Arno e que recebe nomes diferentes de quarteirões em quarteirões, mas sempre começando com Long'Arno ou Longarno, ao longo do Arno. Eles fizeram uma espécie de barragem para a pescaria, que acaba servindo como praia para algumas pessoas, como aparece aí na foto: o pescador esperando que o peixe fisgue o anzol, e o casal deitado conversando.

Tive que mudar de calçada pra olhar de perto uma vitrine que me chamou a atenção. É impressionante a quantidade de pequenas galerias de arte em Florença. Essa exibia uma pinturas em manequins de plástico. Linda a combinação de cores. O artista chama-se Giuliano Ghelli. Havia o anúncio de uma exposição chamada "Le porte della fantasia", que eu não deixarei de visitar durante a semana.

Do outro lado do rio, me chamaram a atenção essas janelas que formam um portal tanto quando estão fechadas como quando estão abertas. Fiquei pensando na possível transposição disso para um livro, lembrando dos formatos diferentes de livro que vi na Feira de Bologna.

Em Florença, o rio Arno é cortado por várias pontes, sendo a Ponte Vecchio a mais famosa. Quando eu cheguei na ponte imediatamente antes dela, dei uma entrada e pedi a um casal para tirar uma foto minha com ela ao fundo. É curiosa essa ponte porque tem construções em cima. Eu suponha que deveriam ser lojas de bugingangas para turistas, mas, logo em seguida, vi que estava enganado.

A rua à beira-rio era interrompida na altura dessa ponte em que tirei a foto. Pra me aproximar da Ponte Vecchio, tive que pegar uma rua paralela, ou razoavelmente paralela, já que o paralelismo das ruas, como já falei, não parece ser uma preocupação para os italianos. Essa rua combinava construções antigas com edifícios mais modernos, como esses aí da foto: uma bonita combinação.

Na mesma esquina desses prédios, havia uma papelaria, coisa também muito comum em Firenze. Mas não são essas papelariazinhas escolares, não. São papelarias cheias de objetos feitos para atrair nosso olhar e tentar nosso tato. Como já passava de 13h, a papelaria estava fechada, mas tirei uma foto desse marcador de livros com uma frase de Leonardo da Vinci que me fez lembrar de Vó Isolda: "O gênio é paciência."

Antes de chegar na Ponte Vecchio, resolvi dar uma parada para almoçar. E parei no lugar certo, porque comi o melhor nhoque da minha vida: um gnocchi quattro formaggi que ainda está derretendo na minha boca. Ainda pensei em esperar para comê-lo amanhã, que é o dia certo do mês pra comer nhoque, mas fiz bem em antecipar: delícia, delícia, delícia.

Enfim Ponte Vecchio. Sabe de que são as lojinhas sobre a ponte? Joalherias. Quem diria? Se um dia aquela ponte cair, uma pequena fortuna irá long'arno. É tanto brilho, é tanto ouro que até ofusca a vista. Incrível o contraste do burburinho da ponte com a área residencial em que eu estava alguns minutos antes: parecia outra cidade.

No meio da ponte, tem uma estátua. Na cabeça da estátua, tem um pombo. Os pombos são um capítulo à parte em toda a Itália. Eles se sentem os donos do pedaço. Ao invés de fugirem dos humanos, ou ficarem mendigando migalhas de pão, eles levantam voo e aterrissam na nossa frente, tirando fino e quase esbarrando na gente.

Ao redor da estátua tem uma grade com uma plaquinha dizendo que é vietato (ou seja, proibido) colocar cadeados nos ferros. Cadeados?! Quem teria uma ideia maluca dessas? Pelo jeito, muita gente, ou pelo menos muitos casais de namorados que escrevem seus nomes nos cadeados e os prendem às grades de ferro. Deve ser uma forma de garantir a segurança do relacionamento, ou algo assim.

Atravessando a ponte e caminhando um pouco no sentido do Arno, eis a Galeria Uffizi. Dentro tem obra de arte que nem presta, mas hoje resolvi apenas dar uma passada de reconhecimento externo. No pátio, muitos pintores vendendo suas aquarelas ou se dispondo a retratar turistas. Essa foto aí, tirada do pátio, mostra uma outra coisa que tenho visto bastante na Itália: guindastes. Em Roma, em Bologna, em Firenze, há sempre vários guindastes. Parece que o país todo está em construção.

Mas o que mais me chamou a atenção no pátio da Galeria Uffizi, na verdade nas escadarias, foi um homem vestido de cupido que brincava, aos beijos e abraços, com as pessoas que lhe davam alguns trocados. Infelizmente não consegui gravar uma cena hilária que aconteceu logo que cheguei em frente a ele, mas essa aí dá uma idéia da diversão. Na cena que não gravei, o marido filmava a esposa abraçada com o cupido e, ao final da performance, o marido se aproximava e... tascava um beijo na boca do cupido. Depois puxava a esposa pela mão e saíam correndo: o marido com a boca e o nariz completamente brancos de tinta de maquiagem.



No final do pátio da Uffizi, na entrada da Piazza della Signoria, fiz uma panorâmica de 360º com as atrações do lugar: um violonista, os artistas performáticos (o cupido bem ao fundo), as estátuas e o... limpador de ruas. Fiquei encantado por esse limpador desde a primeira vez que o vi, na estação Termini, em Roma. Eu sempre achei muito inglório o trabalho dos garis e dos lavadores de chão, limpando enquanto as pessoas já estão sujando novamente. Esse carrinho aí é uma maravilha.



Estou impressionado com o resultado fotográfico e videográfico do dia. Caminhei só umas quatro horinhas e vi isso tudo! Parecia que eu estava adivinhando que no final da tarde começaria a chover e que toda minha vontade -- plenamente realizada -- seria ficar na cama, embaixo das cobertas, cochilando, lendo, escrevendo e vendo TV.

Quanto a amanhã, um pouquinho de ansiedade: dia de mudança. Sairei do hotel e irei para uma casa de família, onde permanecerei por quatro semanas, enquanto faço um curso de italiano no período da manhã. Sem contar que nessa madrugada começa o horário de verão -- embora o tempo não esteja nem pra primavera -- e eu terei uma hora do meu dia roubada -- não será nem emprestada, já que em setembro ou outubro, quando a hora for devolvida aos italianos, eu não estarei mais aqui.