domingo, 19 de abril de 2009

As portas da fantasia

Até o Inverno sente saudades de Firenze, e retorna de vez em quando com seu cinza, seu frio e sua chuva...

Quando sabiam que eu passaria dois meses na Itália, algumas pessoas me disseram para aproveitar e conhecer outros países: França, Alemanha, Portugal, Espanha... “É tudo tão pertinho”, diziam. E eu sempre respondia que queria mesmo ficar só na Itália, aprender o idioma, viver. Porque não me sinto muito bem no papel de turista, querendo conhecer tudo, ir a todos os museus, fazer todas as visitas “obrigatórias”. (Para vocês terem uma idéia, só fui conhecer o Cristo Redentor lá pela 3ª vez em que fui ao Rio de Janeiro.) Também não dou conta de viver como uma pessoa da outra cidade ou do outro país, simplesmente porque não idealizo a vida de um boliviano, de um peruano ou mesmo de um italiano; trabalham duro e têm seus problemas como todo bom brasileiro. Minha vontade era, e é, viver como se fosse eu mesmo, mas numa cidade diferente. Viver, claro, uma versão um pouco diferente de mim mesmo, um eu mesmo mais aventureiro, mais propenso a riscos, a descobertas, mas, fundamentalmente, eu mesmo.

Settimana scorsa, semana passada, foi assim em Firenze. Tanto que não me surpreendi muito ao ver que não havia tirado foto nenhuma. Eu estava simplesmente vivendo na cidade. Comecei a escrever meu primeiro texto – um conto tradicional – diretamente em Italiano, estudei para a scuola, invece simplesmente freqüentar as aulas, fui ao cinema e ao teatro, comprei um jogo de tabuleiro para enviar para minha irmã e cunhado, iniciei a leitura de um novo livro (Fiabe Italiane, do Ítalo Calvino)... E justo quando estava vivendo exatamente aquilo que eu tinha vontade, percebi que os dias da partida já estavam sendo contados, em contagem regressiva. E os dias têm sido, desde então, matizados por uma saudade invisível da qual tenho falado e que pode ser vista em meus olhos.

Fiz uma lista do que ainda deveria fazer em Firenze antes de partir dia 25. Uma lista até pequena, que começava com “subir à cúpula do Duomo” para ver a cidade de cima. Quase todo dia, da janela do 3º andar do Istituto Italiano, eu como uns deliciosos biscoitos olhando para a cúpula do Duomo, onde estão turistas corajosos, dispostos a subir mais de quatrocentos degraus, em espiral, para chegar ao topo de Firenze. Mesmo o Istituto sendo praticamente vizinho ao Duomo, os turistas, lá em cima, parecem pequenos, minúsculos, como se fossem de brinquedo. Eles olham para baixo, com suas câmeras fotográficas, enquanto eu olho para cima. E foi comendo um biscoito que me ocorreu que, talvez, o Duomo não tenha sido feito para se subir e para se olhar para baixo, mas para que se pudesse olhar para cima: uma desculpa para olhar o céu, encarar o sol, perceber nossa pequenez e, quiçá, compreender que o buraco é mais em cima. Então, quando fechei o pacote de biscoitos, fechei também a minha lista: cancelei de uma vez por todas minhas obrigações de turista.


Mas sempre sobra um farelo que atrai uma formiga que passa por qualquer porta. E um item da minha lista eu ainda desejava fortemente cumprir: ver a mostra “As portas da fantasia”, do artista plástico Giuliano Ghelli. Lembram daqueles manequins coloridos que eu havia visto num dos passeios ao longo do Arno? Pois é, entre um delicioso papardelle e meu primeiro iPod, fui ver a exposição, que até gratuita era. Numa cidade em que se paga por tudo, fiquei até envergonhado de não pagar nada para ver as obras de arte mais bonitas que vi até aqui, e comprei o catálogo da exposição.
São as cores, gente. A Itália que eu vi até aqui é carente de cores: é tudo muito pastel. É como os bustos do próprio Ghelli: lindíssimos corpos de mulher cravejados de fantasia, mas sem cor. Nas telas, as cores explodem como se fossem um carro atingido por uma colombina incendiária. Não são simplesmente quadros que retratam portas, são as próprias portas das cores e da fantasia abertas para nós.

E eu saí da Sala de Armas do Palazzo Vecchio sonhando em ter livros ilustrados pelo Giuliano Ghelli.

P.S. Não posso deixar de mencionar, apenas mencionar, outras coisas dessa semana fiorentina... DOIS FILMES: Tutta colpa de Giuda; e Questione di Cuore. DOIS TEATROS: um buffet seguido de show musical no Teatro Dal Sale; e Amor e Psiche no Teatro della Pergola.

sábado, 18 de abril de 2009

Minha màe tem razào -- mais uma vez

Màe, Floreza nào existe. Quer dizer, existe; mas sò no mapa do meu coraçào. :) Eu tinha pensado em criar um nome que traduzisse Florença para indicar a qualidade da cidade, assim como a qualidade de grande é grandeza e a qualidade de belo é beleza. Floreza seria a qualidade de "flor", pensando em "flor" como um adjetivo. Mas devo confessar que fiquei surpreso com sua interpretaçào e que ela me pareceu muito exata, porque tenho me sentido muito em casa em Firenze, entào é mesmo uma combinaçào de Florença com Fortaleza. :)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Quase um poema


Floreza
não é uma cidade
para se curtir
uma semana,
muito menos
para passar
um mês.
É uma saudade
para se habitar
um ano
ou
- pelo menos -
para viver
para sempre.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Enquanto eu lia Questo Amore

Terrminei de ler Questo Amore. Quando faltavam umas 20 páginas, eu era capaz de jurar que não conseguiria terminar, que enlouqueceria antes. Não enlouqueci. Mas não dá pra continuar a viagem do mesmo jeito. No mínimo, terei que incluir Lecce, a cidade em que se passa o livro, no meu roteiro, e olha que eu não estava com a mínima intenção nem de ir para o sul nem de ver o mar Adriático. Mas vou acabar passando uns dias no salto da bota que é a Itália.

Penso que aborreço aqueles que viajam comigo. Penso que já estão cansados de ficar dentro de um quarto, lendo um livro enlouquecedor, mesmo que delicioso. Mas nem tudo foi livro nessa semana. Andei por aí, com o pensamento no livro, claro, mas com a câmera apontada para outras coisas. Ainda não tenho condições de falar muito sobre essas coisas, que continuam me parecendo pouco importantes, então colocarei apenas legendas e deixarei que as imagens falem por si e por mim.

Vista do estádio da Fiorentina pelo lado de fora. Não consegui comprar ingresso para o jogo. Só estavam vendendo para residentes em Firenze, parece que devido a algum problema de segurança relacionado aos torcedores do time adversário, o Cagliari. Pena não ter visto esse jogo. Foi 2 a 1 para a Fiorentina, e teve outros ótimos momentos, depois vi os melhores lances. Mas pena mesmo foi não ter assistido a um jogo de cálcio (futebol) aqui na Itália. O próximo, contra a Roma, não estarei mais aqui. E os outros lugares que visitarei não há times de primeira divisão.

A melhor vista panorâmica de Florença é a da Piazzale Michelangelo. Isso pelo menos até eu subir os mais de 400 degraus do Duomo, o que espero fazer semana que vem. Embora Bigi, minha anfitriã, diga que o lugar mais bonito de Florença, incluindo a vista, é o Forte de Belvedere, mas eu fui lá e está fechado para reformas. De todo modo, cá estou no topo de Florença, com vista para o Arno, para o Duomo e para uma chuva linda que estava acontecendo rio abaixo.

Essa vocês já viram no vídeo, mas segue uma versão em foto. A lua cheia que fez essa semana por aqui, e que vi lá da Piazzale Michelangelo. Interessante é que a lua estava, relativamente, do mesmo tamanho das lâmpadas do poste da praça. E esse azul aí não é efeito nem filtro da câmera, não. É a cor daquele início de noite mesmo.

Na sexta-feira, houve uma pequena despedida na escola. Três colegas ficaram conosco por apenas duas semanas. Eu e os demais ficaremos ainda duas semanas. Nosso time é internacional. Além da professoressa, italiana, tem gente do Brasil, da Alemanha, da Colômbia, dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Dinamarca. E olhe que ainda faltaram, nesse dia e nessa foto, os colegas do Japão e da Austrália. Uma verdadeira sessão da ONU. Eu deixo à diversão de vocês adivinhar quem é de que país.


No sábado, fui ao Giardino de Boboli. Para quem já não agüentava mais tanta pedra, pelo menos deu pra ver uma combinação de pedra e planta.


Brincadeirinha. Era tanta planta que só se via verde. Essa é uma foto da alameda principal do jardim (mas pode chamar de parque natural ou de reserva ecológica, porque o troço é IMENSO).

No domingo, Páscoa. Me falaram de uma tradição tipicamente florentina, o Scoppio Del Carro, e eu fui conferir. Engraçado é que só agora fui olhar no dicionário o significado de “scoppio”: tudo a ver. Mas depois eu conto pra vocês, que é pra não estragar a surpresa.

O evento acontece na praça do Duomo, e eu pensei que não ia gostar, porque cheguei cedo e já tinha uma pequena multidão que não deixava ver muita coisa. Saí pra caminhar um pouco e, na volta, vi a porta lateral da Catedral do Duomo se abrindo. Entrei. Mal sabia eu que iria ver tudo de um dos melhores lugares possíveis: dentro da catedral, perto da porta. Ou seja, vendo o que acontecia dentro e um pouco do que acontecia fora. Fiz um monte de pequenos vídeos. Abaixo estão alguns que dão uma idéia da sequência do evento, o tal Scoppio Del Carro.

Nesse primeiro vídeo, feito logo depois que entrei na catedral, uma panorâmica da porta até o altar.



A festa começa com uma espécie de desfile, com pessoas vestidas à moda medieval, já que é um evento relativo às cruzadas (minha paciência com a História já acabou). No primeiro plano, os batuqueiros. Ao fundo se pode ver a “dança das bandeiras”, que são jogadas para o alto.



Ao meu lado estava um menino bem simpático e alegre, junto com seu pai. Era empolgante a alegria dele.



O carro, estranhíssimo, se aproxima da porta de entrada. Parece vindo do desenho animado A Corrida Maluca. O menino simpático enche o pai de perguntas: “Si, ma perché... ?”



Depois de uns quinze minutos de preparação, o grande momento. Uma mulher tinha me explicado, logo que cheguei, que o cabo prateado à nossa frente seria usado para a “colombina” (pombinha) voar do altar até o carro. A mulher também disse que “se a colombiana bruciasse...” era sinal de que o ano seria bom. Caso ela não “bruciasse”, seria indicação de um ano ruim. (Esse negócio de ano é porque, simplificando ao extremo, o ano antigamente começava na primavera, o que faz muito mais sentido do que começar no inverno.) Agora, alguém me explica o que quer dizer “bruciasse”? Na minha lembrança, o verbo “bruciare” queria dizer “queimar”, mas não me pareceu fazer muito sentido que a pombinha se queimasse. Vejam por vocês mesmos se a colombina bruciou (minha professoressa que não me leia isto) ou não...



Bom, me disseram que os fogos durariam 15 minutos. Uns dois minutos após o início, perguntei ao pai do menino se ainda aconteceria alguma coisa dentro da chiesa (quer dizer, igreja, juro que saiu naturalmente, pensei em italiano, viva! Viva!). O pai me olhou como se fosse minha mãe e disse: “La messa”. Esperei ele virar para o outro lado e saí de mansinho. Eu estava excitado demais para assistir a uma missa. Não consegui me aproximar do carro pela praça: muita, muita gente. Dei a volta no quarteirão e consegui filmar um pouquinho, e de longe, o final do foguetório. Gente, o carro...



... “explodiu”. É esse o significado de “scoppio”: explosão. Eu havia acabado de assistir à minha primeira Páscoa com direito a explosão de carro. Não, não me perguntem por que se explode um carro por aqui, pois eu já falei que minha paciência com a História acabou. O que posso dizer é que foi a primeira vez na vida em que não tive medo do estrondo dos fogos de artifício. Para mim foi um barulho encantadoramente ensurdecedor e inesquecível.
Acabei colocando mais que legendas. Vocês me perdoam? :-)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Um parêntese em Questo amore

Tenho visto muita coisa bonita desde domingo. Meu primeiro pôr-do-sol acima da Linha do Equador. Uma lua cheia vista do alto de Firenze. Vênus, e outras mulheres lindas, de Botticelli. O David gigantesco e quase vivo de Michelangelo. Mas nada, nada, consegue ainda me tirar do campo de gravidade de Questo Amore, um livro que arrisco dizer que foi escrito pra mim.

Se escrevo agora, é só para não esquecer de Fiederich, ou seja lá como se diz Frederico em albanês. Se escrevo agora, é só para não esquecer de sua tela ainda não terminada. Se escrevo agora, é só para não esquecer que ele, ainda bambino, roubava cores de seu irmão mais velho. Se escrevo agora, é só para não esquecer de sua saudação final de bom augúrio: "In bocca al lupo!" Porque eu já esqueci como se responde a tal saudação.



E agora volto a quello amore, que é verdadeiramente questo amore, mio amore.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Questo amore

Anteontem, ao entrar numa livraria, entrei -- inadvertidamente -- em um livro: "Questo amore", de Roberto Cotroneo. Entrei no livro como quem entra numa mulher -- fazendo-nos amor. E pelo bem de nossa intimidade é que cerro a cortina do diário -- com a manivela do silêncio -- por um gozo ou dois.

domingo, 5 de abril de 2009

Il battesimo di Lorenzo

Estou hospedado na Via di Monte Uliveto, uma rua que, adivinhem, vai dar no Monte Uliveto. Todo dia, quando chego ou quando saio, lá estão as árvores do monte, logo ao final da rua, me convidando. Neste sábado, em que acordei às 9h30 (ah, como é bom voltar a acordar sem despertador), resolvi tirar o resto da manhã para subir o monte, seguindo a rua no sentido inverso ao que tomo todo dia.

De fora, o monte sempre me pareceu pequeno, uma coisinha de nada. Mas quando se começa a caminhar... Os caminhos parecem, ao mesmo tempo, íngremes e longos. E vão estreitando, estreitando. Eu pensei que o monte era meio desabitado, ma che! É casa, é igreja, é hotel... e carro, muito carro: carro estacionado e carro indo pra lá e pra cá.

O mapa que eu tinha não era muito preciso. Na verdade, indicava que o monte tinha apenas três ou quatro caminhos. Só que não era bem assim. A cada duzentos metros, no máximo, havia uma bifurcação ou encruzilhada. Sem querer apelar para o mapa, eu olhava para um lado, olhava para o outro, sentia o que mais me agradava e deixava as pernas seguirem a intuição. De vez em quando, dava uma olhada para trás, pra apreciar a vista da cidade, que aparecia cada vez mais inteira e menor.

Às vezes, por curiosidade e coragem, tomava determinado caminho, como quando entrei numa rua minúscula que, ainda por cima, era de mão dupla. Nela, excepcionalmente, não encontrei nenhum carro indo ou voltando. Caminhantes como eu, encontrei dois ou três durante todo o percurso. E alguns moradores, ou trabalhadores, que pareciam apenas se deslocar de um lugar para outro, sem muita cara de passeio, à exceção de um pai que levava uma filha deficiente numa cadeira de rodas, e que me respondeu com um bonito sorriso quando eu disse “Buongiorno!”.

Algumas vezes, o caminho era vetado por se tratar de uma propriedade particular, embora a estrada para entrar na propriedade particular fosse, não raro, muito maior do que a estrada que eu estava percorrendo. Entre as coisas mais curiosas que vi, estava esse portão entreaberto, como que convidando para a entrada, mas com uma placa no alto: “CANI MORDACI”. As placas de alerta sobre cães por aqui costumam ser mais delicadas, tipo “Atenti al cane”, até com uma imagem simpática de um cachorro. Esse dono aí, no melhor estilo humorístico cáustico italiano, colocou logo “Cães mordazes”, ou, numa tradução menos rebuscada, “Cães mordedores”.

Pena mesmo deu quando eu estava me aproximando do que seria a vista do ponto mais elevado do monte. Já estava me preparando para tirar a melhor fotografia da manhã quando vi a placa de que estava proibida de seguir adiante qualquer pessoa que não fosse hóspede do hotel que ficava no alto do Monte Oliveto, virado para a cidade. Tirei uma foto não tão do topo, meio espremido entre árvores. Havia uma espécie de bruma sobre a cidade, que tornava as tradicionais cores pastéis das cidades italianas ainda mais fechadas.

Caminhando, caminhando, cheguei ao final – na verdade, o ínicio – da minha rua, a Via di Monte Uliveto. Quer dizer que todo aquele tempo, escolhendo entre uma encruzilhada e outra, estive me conduzindo na mesma rua? Coisa verdadeiramente estranha. Mas, dali em diante, não havia mais Via di Monte Uliveto. E realmente as encruzilhadas se multiplicaram. Algumas vezes, dava uns vinte passos numa direção, depois retornava, tentando ir mais para a esquerda do que para a direita, como me aconselhara Bigi, e mais pra baixo do que pra cima, já que já havia atingido o ponto mais alto.

Foi quando vi uma ruazinha muito estreita e, embora ela não me parecesse uma estrada principal – seja lá o que isso signifique naquele labirinto de ruas do Monte Uliveto –, resolvi entrar por ela. Duzentos ou trezentos metros depois, cheguei a mais uma igreja. Estava aberta, e resolvi entrar. Para minha surpresa, havia um padre falando e alguns fiéis. Mas não parecia uma missa comum. Sentei ao fundo, enquanto todos, umas sessenta pessoas, se concentravam nos primeiros bancos. O padre falava da importância da união do casal. Pensei que talvez se tratasse de um casamento. Mas não, logo depois vi que o padre se referia ao casal de padrinhos, então tratava-se de um batizado. O afilhado chamava-se Lorenzo. Resolvi acompanhar um pouco a cerimônia: do sermão até o batizado propriamente dito. Mesmo com um pouco de medo de ser censurado por um dos parentes e amigos, arrisquei tirar a câmera e fazer um foto para que vocês vissem o pequeno Lorenzo. O batizado, pra mim, é sempre comovente. Penso que não foi à toa que o próprio Cristo pediu para ser batizado por João, o batizador. E também acho muito bonito o acréscimo que foi feito, dos padrinhos. Fiquei ali lembrando de meus padrinhos, com quem tive pouca convivência, mas de quem sempre gostei bastante: Amadeu e Iolanda. E lembrei também de como eu era tolo no tempo em que meu caro amigo Fabiano me chamou para ser padrinho de seu segundo filho, o João, e eu recusei. Mas em algum lugar do meu coração, eu aceitei o convite, porque gosto muito, muito, do João, uma criatura veramente incrível.

Saindo da igreja, rua abaixo, o rumor dos carros começava a aumentar e eu supus que estava perto de sair do Monte Uliveto. Nos últimos metros, no muro, havia pequenos oratórios que, a princípio, pensei serem as estações da Via Crucis. Depois descobri que eram os mistérios do Rosário, no caso, os dolorosos. Fiquei imaginando minha mãe subindo aquela ladeira, parando a cada 10 metros para rezar umas ave-marias.

E logo, logo, estava eu de volta ao barulho da cidade. Tirei o mapa do bolso interno do casaco, e, para minha surpresa, eu estava exatamente no local em que eu gostaria de estar se pudesse ter escolhido uma rota. Seguindo apenas a intuição eu havia chegado justamente onde desejava se tivesse planejado. Para mim, funcionou como uma confirmação de um pensamento que tem rondado minha mente com freqüência: “Não é preciso planejar tanto, deixe as coisas seguirem seu fluxo, permita-se você também seguir seu próprio fluxo, e não se preocupe se as coisas parecerem sem sentido no momento”.

Agora era só contornar o morro, seguindo a via principal. Passei pela Porta Romana, que é realmente uma porta, só que de uns 15 metros de altura, e que a gente nem sempre percebe, porque está sempre aberta e o arco chama mais a atenção do que a porta em si, de madeira, que fica encostada. Na frente da porta, há uma praça. No meio da praça, uma estátua: uma bela mulher com uma pedra na cabeça. Perdoem-me a molecagem diante de uma obra de arte tão bonita, mas eu só conseguia pensar na música “lata d’água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria”. No meio da foto se meteu um motociclista. Motos são relativamente raras aqui, em meio ao vespeiro de vespas ou, sem pleonasmo, ao vespeiro de lambretas. Aqui em Firenze, assim como em Roma e Bologna, é sempre assim: o antigo é continuamente atravessado pelo moderno.

A poucos quarteirões de casa, vi umas orquídeas que me lembraram Alba. Não tão bonitas quanto as que ela mesma cultiva. Não tão lindas quanto ela mesma é, mas orquídeas, sempre belas. E me contento em estar chegando nessa casa que será a minha ainda por algumas semanas, enquanto não chego na minha casa mesmo, o que só acontecerá no final do mês que vem.

Almocei umas verduras que comprei no Seu Lunga, uma verdadeira salada que tinha de tudo, até feijão. Depois tirei meu cochilo. Ainda pensei em vagar pela cidade mais um pouco, mas resolvi escrever o diário e guardar um pouco as energias para a noite, já que estava com vontade de ir ao teatro, ver uma peça chamada “MOLLY B. Tutti i miei sì” que, se eu me atravesse a traduzir seria algo como “Molly B. Todos os meus sis”, mas não me atrevo.

O teatro era aqui próximo, na Via Pisana, um pouco abaixo do supermercado. Quando deu umas 19h30, fui lá comprar meu ingresso. Na volta, passei no Seu Lunga pra comprar água. Fiquei impressionado. No centro de Firenze, ou de Roma, ou de Bologna, você compra uma garrafinha de meio litro por, no mínimo, 1 Euro. Num restaurante, a garrafinha pode custar até 2 euros. Eu já estava satisfeito por comprar, na esquina de casa, uma garrafa, de litro e meio, por 1,30 Euro. No Seu Lunga, tinha a esperança de comprar a mesma garrafa por 1 Euro. No dispositor, não consegui localizar o preço. Peguei duas garrafas. Qual não foi minha surpresa ao chegar no caixa... Primeiro que o homem que estava à minha frente, e que carregava não sei quantas cervejas, em lata e em garrafa, tirou do bolso uma nota de 20 Euros. Justo, pensei. Só que a mulher lhe deu um troco de mais de 15 Euros, e eu não acreditei. Gente, como é fácil se embriagar aqui. Por menos de 5 Euros, aquele cara estava correndo o risco de coma alcoólico. Chegou a minha vez. Eu sabia que não ia dar muito, e estava na dúvida se, mesmo assim, usaria cartão de crédito. Então a mulher anunciou minha conta: 2,75 Euros. Isso porque eu tinha comprado um pacote com seis barrinhas de cereal. Paguei e dei uma olhada no recibo. Sabem quanto me custou cada garrafa de litro e meio de água? Catorze centavos de Euro. Inacreditável, gente! Deveriam vender Gnocchi al Quattro Formaggi aqui no Seu Lunga também.

Deixei as compras em casa e retornei ao teatro. Só nos deixaram entrar na sala às 21h. Um teatro simples, mas bonito, com paredes de tijolo aparente. Os atores, um casal, já estavam no palco, sobre uma cama, enrolados, invertidos, com os pés próximos à cabeça um do outro, a mulher virada para a platéia, o homem apenas mostrando a parte de trás da cabeça para a gente. A cama estava um pouco pensa, transversal e inclinada – parece que a insólita geometria italiana não se aplica apenas às ruas. O encosto da cama, a cabeceira, ou seja lá que nome tenha, era espetacular, enorme, e se projetava, também pensa, transversal e inclinada, da cama para o teto por uns dois metros e meio. Cravados na madeira do encosto, como se afundados num cimento que era fresco e que se solidificou, uma série de objetos dos mais variados tipos: cabide, cadeira, carrinho de bebê... O cenário era só isso, e, acreditem, era mais do que o suficiente. Se a peça fosse só aquilo, assistir durante uma hora àquele casal dormindo, juro que daria meus 12 Euros por muito bem empregados. Aquela visão me inspirava a tal ponto que comecei a escrever mentalmente. Cheguei a fechar os olhos, e senti o arrepio criativo percorrer meu corpo. Eu havia entrado numa nuvem de possibilidades de histórias. A mais visível era a de um menino que, dormindo, nos contava a sua história, interligando os objetos visíveis em sua cama.

Estava eu nesse delírio pessoal, nessa experiência quase mística, quando, não sei por que infelicidade, resolveram dar início ao espetáculo propriamente dito. As luzes da platéia se apagaram e a iluminação se concentrou sobre a cama. A mulher começou a sussurrar, ainda em sonhos. De tanto sussurrar, acordou a si mesma, e continuou a falar pelo restante do espetáculo enquanto o outro ator ficou lá, praticamente imóvel, representando que dormia, ou dormindo de verdade, quem há de saber. A peça era um monólogo, eu devia ter desconfiado só de ter visto o anúncio. A atriz saiu da cama uma única vez, para representar que estava fazendo xixi, ou cocô, num penico, a apenas um metro da cama, e pouco depois retornou. Não entendi a maioria do que ela disse, ri uma única vez, contra os seis ou sete risos da platéia – a mulher à minha frente não conta, ela riu o espetáculo inteiro. De todo modo, compreendi o sentido geral da coisa. A mulher, em seu falar sozinho, de madrugada, reclamava do homem que estava dormindo, e um pouco de sua filha, relembrava antigos amores, idealizava futuros. Eu fiquei me perguntando por que não tinha ficado tudo como no início: o silêncio, a beleza simples e desorganizada do cenário, os atores dormindo. E, como eu não sabia da duração do espetáculo, tive medo de que durasse duas ou três horas.

Para minha sorte, no total, descontado o atraso inicial, deve ter durado uns quarenta e cinco minutos. A luz apagou, enfim. E quando acendeu, já era a luz da beira do palco, e não a luz da cama. A atriz veio receber seus aplausos. Eu também aplaudi, afinal sou uma pessoa educada. Depois ela foi para trás da cabeceira da cama e, na volta, trouxe o ator, que ainda estava com cara de sono. Brincadeirinha, ele parecia muito tímido, assustado até. Algumas pessoas riram quando eles apareceram de mãos dadas. Eu até pensei em rir também, pela segunda vez na noite, já que era mesmo curioso, quase ofensivo, um ator não fazer nada durante toda a peça e, no final, ainda vir receber aplausos. Mas me ocorreu outro pensamento, um pensamento que me fez querer ficar de pé e bater palmas com força até sangrar as mãos, e gritar não “Brava!” – porque descobri que o que para nós é exclamação (“Bravo!”), aqui é adjetivo, concordando em gênero com a pessoa a que se refere. Não, eu não queria dizer que a atriz era brava, quer dizer, muito competente naquilo que faz. Também não me veio a vontade de gritar “Bravi”, reconhecendo, no plural, o valor dos dois atores, juntos. Não, nada disso. Veio-me, pura e simplesmente, o desejo enorme de gritar “Bravo! Bravo!”, tanto para o ator quanto para o seu personagem. É preciso ser muito bravo para conseguir dormir, ou pelo menos ficar imóvel, enquanto uma mulher fala e reclama e delira durante quase uma hora. Sim, “Bravissimo! Bravissimo!”, pensei em gritar com toda a minha garganta. Que desempenho espetacular! Impressionante como aquele ator havia conseguido manter, sozinho, o clima inicial! E como eu havia perdido tempo tentando entender o que a atriz dizia, cansando meu juízo. Deveria ter me concentrado na imobilidade do ator e do cenário. A fala da mulher deveria ter sido, para mim, um murmúrio de fundo, uma música ambiente. Sim, era sobre isto o espetáculo, e é sobre isto a vida. Permanecer tranquilo enquanto o mundo gira. Dormir o sono dos justos enquanto a multidão agitada se ergue em reclames de injustiça.

Depois foi só caminhar até o número 13 da Via di Monte Uliveto, ler um pouco mais de Pinocchio – que está, graças a Deus, quase a ponto de tomar juízo – e adormecer sob as cobertas, mesmo a cama sendo reta e sem encosto de cabeceira.